terça-feira, 16 de novembro de 2010

Olímpia: "meu livro e meu marido me foram roubados pela mesma pessoa"

Querida Sheila

Você não me conhece, mas eu acompanho seu trabalho de crítica e não deixei de te admirar muito quando voce foi curadora de duas bienais com grande sucesso. Quando tenho tempo, acompanho você na Internet. Gosto muito de arte mas não sou artista. Sou professora - mestre e doutora em Filosofia - autora de um livro e membro de uma sociedade prestigiosa na minha área. Com tudo isso, realmente sinto que não consegui nada, pois minha vida é triste. Sem amor e desiludida com a falta de sinceridade dos amigos, encontro-me só e deprimida. Tenho sessenta anos e lembranças de um passado nem sempre feliz. Já procurei ajuda de um psiquiatra-psicanalista, o que me deixou pior ainda. Ele era um italiano charmoso, um pavão. Acabei gostando dele, é claro, a famosa transferência, mas percebi que ele precisava mais da minha admiração, e porque não, dos dóllares com os quais o pagava. Para encurtar a história, o que me derrubou de fato foi o seguinte: viajei para a França, frequentei a Sorbonne (Paris1) durante alguns meses. Estava escrevendo um livro sobre um famoso filósofo de minha área. Ainda era casada e meu marido ficou no Brasil. Quando voltei,encontrei-me não apenas sem ele, como sem o meu livro, pois ambos me foram roubados pela mesma pessoa. Sabendo do teor de minha investigação, a professora-chefe do nosso departamento adiantou-se, escreveu um volume sobre o mesmo tema e conseguiu editá-lo. Quanto ao meu marido, ele ja estava morando com ela... O pior é que tenho que vê-los diariamente pois damos aula no mesmo departamento. É insuportável. Torno-me irracional, tenho vontade de matá-los, mas mantenho sempre esta bela aparência de dignidade, o que me deixa pior ainda. Não posso abandonar meu emprego, pois com minha idade não é fácil encontrar outro. Não quero contar a ninguém o que me aconteceu mas, ao mesmo tempo, necessito compartilhar a minha tristeza. Aqui me sinto em segurança, gostaria muito de ouvir uma palavra sua.



Querida Olímpia,

De fato, você está numa situação muito difícil. Difícil por dois motivos: primeiro pelos fatos em sí. Traição, injustiça, humilhação, amor-próprio ferido são sempre fonte de um grande sofrimento. E segundo, porque como toda situação difícil não é definitiva e que o "insuportável" não pode durar muito, você se vê obrigada - além de tudo - a enfrentar a indefinição como se as coisas fossem imutáveis, resignando-se e "mantendo esta bela aparência de dignidade". Não é a toa que isso a deixa pior ainda! Você não se dá nem ao menos tempo, e um espaço neutro, para tratar de suas feridas. Como é que pode sarar no mesmo campo de batalha? Pelo que escreve, têm-se a impressão de que a sua vida está totalmente submetida a pessoas, lugares e situações. É claro que a sua profissão, seu departamento, universidade e cidade, fazem parte de sua vida. Porém mesmo que lhe digam respeito - no fundo tudo isso é externo a você. Não é a sua vida pois - se tivesse coragem e disposição - poderia reencontrar as mesmas coisas de outras formas e em outros lugares. Não sei o quanto falta para a sua aposentadoria ou se pretende se aposentar, mas penso que não deve ficar nem um minuto a mais como está e onde está. Professores podem ser mutados. Devem haver saídas, procure-as rapidamente. Também não conheço as suas possibilidades materiais, mas me parece que para uma pessoa de seu nível, não existem muitos obstáculos. O que está à sua volta hoje não vai se transformar. Só resta a você o desejo de mudança. A sua vida está em suas mãos. E ela não merece que você a passe sem fazer outra coisa do que encontrar desculpas para a imutabilidade.

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