sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ana Paula: "como nossos pais podem ser tão insensíveis?"

Querida Sheila,

Tenho dois irmãos: um mais velho e um mais novo do que eu. Fico louca da vida com a maneira com que os meus pais tratam o caçula. Sempre somos obrigados a escutar como ele é maravilhoso, mesmo que eles o tenham o sustentado financeiramente nos últimos 10 anos. Meu outro irmão e eu nunca recebemos ajuda de ninguém. A gente gostaria de ter continuado os estudos, mas tivemos que ir trabalhar cedo. Enquanto isso, o caçula fez medicina e os meus pais não se cansam de contar a todos sobre o seu filho doutor. Chegou a um ponto que não aguento mais ficar perto deles. Me magoa ouvi-los elogiando o caçula quando eles nunca deram atenção a mim e ao meu outro irmão. Querida Sheila, como os pais podem ser tão insensíveis em relação a seus filhos? Não posso falara com eles sobre esse assunto porque é assim que eles sentem e não vêem nada de errado com esse comportamento.
Mas que isso dói, dói.
A inútil.



Querida Ana Paula,

Acho que já está na hora de você matar os seus pais. Não, não pense que estou incitando você a cometer um crime. Muito ao contrário. Também não quero dizer que você deixe de amá-los ou que nunca mais os veja. Nada disso. Também não se trata de uma linguagem simbólica. Eu estou sugerindo que você aniquile os seus pais, dentro de você, de verdade. Justamente para que não se sinta inútil e possa conviver com eles e com você mesma, em paz. Como? Primeiro, tomando distância e libertando-se de tudo que faz você depender deles. Segundo, admitindo que eles são eles e você é você. Fique, e observe tudo, "de fora". Terceiro, lembrando-se que seus pais fizeram o máximo que puderam e que se não puderam mais ou melhor é porque não conseguiram. Tanto faz quais foram as razões. "Matá-los", portanto, significa não alimentar mais nenhuma expectativa, não cobrar e não esperar absolutamente nada deles. No dia em que conseguir, não só vai ser mais fácil amá-los e compreendê-los, como nada do que disserem ou fizerem vai lhe tocar. E mesmo se tocar, você estará tão forte que poderá ficar perto deles (e até mesmo ajudá-los, se for o caso) sem que isso a afete muito. Admito que é um trabalho a ser feito. Mas pode ser mais rápido do que você pensa pois uma vez entendido o mecanismo, clic! Você rompe todas as amarras que a estão fazendo sofrer.

2 comentários:

  1. comigo é parecido, só que sou o caçula...

    ...faz tempo que minha terapeuta deu a mesma dica da Sheila, mas até agora não consegui perpetrar o "crime".

    selaví!

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  2. Boczon,

    Ninguém consegue "perpetrar o crime" racionalmente. Trata-se de um "clic". Decide-se no estômago e adota-se no coração. A cabeça só serve para gerir a liberdade decorrente.

    Selaví! E oxalá.

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