domingo, 21 de novembro de 2010

Celso M.: "e se as suas respostas forem usadas pelos 'psi'?"

Querida Sheila,

Sou psicólogo e trabalho como psicoterapeuta em Belo Horizonte. Gostei muito do seu blog e de suas respostas. Uma delas, aliás, me deu idéias em relação a um paciente. Me ocorreu que outros profissionais como eu poderiam recorrer ao seu blog, enviando-lhe casos para os quais eles tenham dúvidas e usar as suas respostas em seus consultórios. Isso já lhe ocorreu? Como é que veria esta possibilidade? Sentiria-se usurpada?



Querido Celso M.,

De forma nenhuma. Não acredito nisso, mas se ocorresse, ao contrário, seria um ótimo sinal. Não importa se as questões são enviadas pelas próprias pessoas ou pelos seus intermediários. Em geral, os vários assuntos dizem respeito a todos. As minhas sugestões ou opiniões, apesar de serem respostas a particulares anônimos, são destinadas à totalidade dos leitores e podem ser lidas em vários níveis. Todos podem aproveitar pois, como digo na apresentação deste blog "em geral, as pessoas possuem as mesmas emoções e problemas e ficam felizes em ver que não estão sozinhas".

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ana Paula: "como nossos pais podem ser tão insensíveis?"

Querida Sheila,

Tenho dois irmãos: um mais velho e um mais novo do que eu. Fico louca da vida com a maneira com que os meus pais tratam o caçula. Sempre somos obrigados a escutar como ele é maravilhoso, mesmo que eles o tenham o sustentado financeiramente nos últimos 10 anos. Meu outro irmão e eu nunca recebemos ajuda de ninguém. A gente gostaria de ter continuado os estudos, mas tivemos que ir trabalhar cedo. Enquanto isso, o caçula fez medicina e os meus pais não se cansam de contar a todos sobre o seu filho doutor. Chegou a um ponto que não aguento mais ficar perto deles. Me magoa ouvi-los elogiando o caçula quando eles nunca deram atenção a mim e ao meu outro irmão. Querida Sheila, como os pais podem ser tão insensíveis em relação a seus filhos? Não posso falara com eles sobre esse assunto porque é assim que eles sentem e não vêem nada de errado com esse comportamento.
Mas que isso dói, dói.
A inútil.



Querida Ana Paula,

Acho que já está na hora de você matar os seus pais. Não, não pense que estou incitando você a cometer um crime. Muito ao contrário. Também não quero dizer que você deixe de amá-los ou que nunca mais os veja. Nada disso. Também não se trata de uma linguagem simbólica. Eu estou sugerindo que você aniquile os seus pais, dentro de você, de verdade. Justamente para que não se sinta inútil e possa conviver com eles e com você mesma, em paz. Como? Primeiro, tomando distância e libertando-se de tudo que faz você depender deles. Segundo, admitindo que eles são eles e você é você. Fique, e observe tudo, "de fora". Terceiro, lembrando-se que seus pais fizeram o máximo que puderam e que se não puderam mais ou melhor é porque não conseguiram. Tanto faz quais foram as razões. "Matá-los", portanto, significa não alimentar mais nenhuma expectativa, não cobrar e não esperar absolutamente nada deles. No dia em que conseguir, não só vai ser mais fácil amá-los e compreendê-los, como nada do que disserem ou fizerem vai lhe tocar. E mesmo se tocar, você estará tão forte que poderá ficar perto deles (e até mesmo ajudá-los, se for o caso) sem que isso a afete muito. Admito que é um trabalho a ser feito. Mas pode ser mais rápido do que você pensa pois uma vez entendido o mecanismo, clic! Você rompe todas as amarras que a estão fazendo sofrer.

Amada 28: "sou uma eterna insatisfeita"

Querida Sheila,

Somos conhecidas, mas não quero me identificar por razões óbvias.
Como você é uma mulher culta que já viu e viveu muitas coisas, talvez possa me ajudar: desisti dos psicanalistas com suas respostas não respostas.
Meu caso é que não fico feliz com nada: tenho dinheiro, ainda uma certa beleza, cultura, saúde e mesmo assim... no momento não tenho namorado mas quando tinha também estava infeliz, pois via nele mil defeitos. Mas agora desejo reatar minha relação com ele; já fiz isto mil vezes e quando volto, fico feliz na hora e infeliz em seguida e tudo recomeça: ciclos de rápida felicidade e assim que alcanço o que almejo, morro de infelicidade.
Será que pode me dar uma palavra de esclarecimento?



Querida amada 28,

O seu enigma está resolvido na frase "assim que alcanço o que almejo, morro de infelicidade". Isto quer dizer que tudo o que importa para você é a batalha, não a conquista. A minha sugestão é a seguinte: desvie o seu combate para outro lugar e deixe a relação amorosa em paz. Lute em outros domínios. Com dinheiro, beleza, cultura e saúde você saberá sair de seu mundo particular e se deslocar para onde precisam de você. Não sei qual é a sua especialidade, mas é nela que você deve brigar, e continuar insatisfeita, para poder melhorar. Depois descanse - merecidamente - nos braços do seu namorado, pois os homens - quando são confiáveis - não foram feitos para que lutemos contra eles. Foram feitos para nos completar. O seu querido precisa de você da mesma forma que você precisa dele. Ele tem defeitos? Você também tem. Mesmo que não o ame, parece que você gosta dele e isso já é um bom motivo para aceitá-lo como ele é.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Salomé: "ele é meu o que?"

Querida Sheila,

Moro com um homem há muitos anos. Não gosto de chamá-lo de "marido" pois não somos casados e não queremos assumir este compromisso. Designá-lo "cônjuge", então, é impossível! Também não quero dar a ele nome de "namorado" pois fica meio esquisito ter um namorado depois dos 50... A palavra que inventaram, "namorido", acho ridícula. Assim como também detesto as palavras "companheiro" ou "parceiro". Não somos do PT e tampouco sócios em alguma empresa. Não posso apresentá-lo com a frase "este é meu homem" da mesma maneira como ele diz "esta é minha mulher". E ficaria absurdo afirmar, como no Facebook, "eis o meu relacionamento sério", "aqui está o meu relacionamento enrolado", "esta é a minha amizade colorida", etc. Tem até uma antropóloga carioca que está pedindo idéias para descobrir uma "definição satisfatória para as novas formas de conjugalidade". Mas eu não quero esperar até lá. Você poderia me dar uma idéia de como chamar e apresentar o meu... o meu... bem, aquela pessoa de quem estou lhe falando?



Querida Salomé,

A sua antropóloga está com uma pequena falha na cultura semântica dela. Você fez bem em me consultar, pois eu mesma acho muito estranho que até agora, no Brasil, não se usa (ou não se descobriu) o único termo utilizado em toda parte do mundo civilizado! Quando você apresenta uma pessoa de suas relações você diz: "este é fulano" ou "este é um amigo", certo? Ora, quando for apresentar a pessoa com a qual você compartilha a sua vida, a fórmula seria: "Este é meu amigo", sendo que a palavra "meu" é que faz toda a diferença. Simples e sutil, mas eficaz. É também um bom começo para introduzir em nossa linguagem e em nossa cultura, aquilo que precisamos (urgentemente) em nosso cotidiano: fineza e nuança.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lúcia: "sou uma desastrada"

Querida Sheila,

Não sei o que fazer. Como não podemos pagar, a minha empregada trabalha em casa só duas vezes por semana e quando ela não está, não passa um dia sem que eu quebre algumas coisas. Cinco dias sem empregada nos dá um prejuízo equivalente a um jogo completo de chá. Meu marido já me ameaçou até com divórcio pois, diz ele, "estou nos arruinando"... A verdade é que eu na cozinha acabo saindo mais caro do que uma mensalista!



Querida Lúcia,

Você vai acabar ficando sem dinheiro e sem marido. Mas eu tenho uma solução para o seu desajeito. Quando vim morar em Paris (aqui não dá para ter empregada) eu quebrava demais - não 5 - mas 7 vezes por semana. No dia em que quebrei uma porcelana amada que foi da minha avó, sentei no sofá e, no meio das lágrimas, refleti muito. Refleti tanto que descobri as razões pela quais quebrava tudo. Foi tão simples como o ovo de Colombo! Primeira: distração. Eu lavava ou guardava os artefatos pensando em outra coisa. Segunda razão: impaciência. Eu trabalhava de má vontade, com pressa de terminar. "Já que sou obrigada a fazer a louça, de que adianta fazê-la contrariada?", pensei. A partir de então, comecei a prestar atenção em meus gestos e, mais do que isso, inventei um balé harmonioso para cada vez que tivesse que levar ou tirar um copo da pia. Foi bem melhor para mim (e para os pratos) quando comecei a transformar a corvéia em diversão. Voilà! Se você seguir este ritual, nunca mais quebrará nada. Mas avise o seu marido. No começo ele é capaz de pensar que de tanto quebrar coisas, você enlouqueceu.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Olímpia: "meu livro e meu marido me foram roubados pela mesma pessoa"

Querida Sheila

Você não me conhece, mas eu acompanho seu trabalho de crítica e não deixei de te admirar muito quando voce foi curadora de duas bienais com grande sucesso. Quando tenho tempo, acompanho você na Internet. Gosto muito de arte mas não sou artista. Sou professora - mestre e doutora em Filosofia - autora de um livro e membro de uma sociedade prestigiosa na minha área. Com tudo isso, realmente sinto que não consegui nada, pois minha vida é triste. Sem amor e desiludida com a falta de sinceridade dos amigos, encontro-me só e deprimida. Tenho sessenta anos e lembranças de um passado nem sempre feliz. Já procurei ajuda de um psiquiatra-psicanalista, o que me deixou pior ainda. Ele era um italiano charmoso, um pavão. Acabei gostando dele, é claro, a famosa transferência, mas percebi que ele precisava mais da minha admiração, e porque não, dos dóllares com os quais o pagava. Para encurtar a história, o que me derrubou de fato foi o seguinte: viajei para a França, frequentei a Sorbonne (Paris1) durante alguns meses. Estava escrevendo um livro sobre um famoso filósofo de minha área. Ainda era casada e meu marido ficou no Brasil. Quando voltei,encontrei-me não apenas sem ele, como sem o meu livro, pois ambos me foram roubados pela mesma pessoa. Sabendo do teor de minha investigação, a professora-chefe do nosso departamento adiantou-se, escreveu um volume sobre o mesmo tema e conseguiu editá-lo. Quanto ao meu marido, ele ja estava morando com ela... O pior é que tenho que vê-los diariamente pois damos aula no mesmo departamento. É insuportável. Torno-me irracional, tenho vontade de matá-los, mas mantenho sempre esta bela aparência de dignidade, o que me deixa pior ainda. Não posso abandonar meu emprego, pois com minha idade não é fácil encontrar outro. Não quero contar a ninguém o que me aconteceu mas, ao mesmo tempo, necessito compartilhar a minha tristeza. Aqui me sinto em segurança, gostaria muito de ouvir uma palavra sua.



Querida Olímpia,

De fato, você está numa situação muito difícil. Difícil por dois motivos: primeiro pelos fatos em sí. Traição, injustiça, humilhação, amor-próprio ferido são sempre fonte de um grande sofrimento. E segundo, porque como toda situação difícil não é definitiva e que o "insuportável" não pode durar muito, você se vê obrigada - além de tudo - a enfrentar a indefinição como se as coisas fossem imutáveis, resignando-se e "mantendo esta bela aparência de dignidade". Não é a toa que isso a deixa pior ainda! Você não se dá nem ao menos tempo, e um espaço neutro, para tratar de suas feridas. Como é que pode sarar no mesmo campo de batalha? Pelo que escreve, têm-se a impressão de que a sua vida está totalmente submetida a pessoas, lugares e situações. É claro que a sua profissão, seu departamento, universidade e cidade, fazem parte de sua vida. Porém mesmo que lhe digam respeito - no fundo tudo isso é externo a você. Não é a sua vida pois - se tivesse coragem e disposição - poderia reencontrar as mesmas coisas de outras formas e em outros lugares. Não sei o quanto falta para a sua aposentadoria ou se pretende se aposentar, mas penso que não deve ficar nem um minuto a mais como está e onde está. Professores podem ser mutados. Devem haver saídas, procure-as rapidamente. Também não conheço as suas possibilidades materiais, mas me parece que para uma pessoa de seu nível, não existem muitos obstáculos. O que está à sua volta hoje não vai se transformar. Só resta a você o desejo de mudança. A sua vida está em suas mãos. E ela não merece que você a passe sem fazer outra coisa do que encontrar desculpas para a imutabilidade.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

João Maria: "se não casar, ela me deixa"

Querida Sheila

Meu nome é João Maria, mas me chamam de Nhenhen. Fiquei sabendo da senhora por uma vizinha do apartamento onde moro. Ela disse que é fã sua ha muito tempo. Eu que não sou dado a coisas de blogues e outras mais deste tipo, resolvi lhe procurar. Me desculpe se fizer algum erro de escrita, mas só cursei o primario pois eramos muito pobres la em casa na Bahia onde nasci. Minha mãe pariu doze filhos. Eu fui o caçula. Morreu a coitada quando eu tinha quatro anos Hoje trabalho como chofer de taxi, tenho carro proprio, ja fui casado, minha mulher me deixou por outro. Vivo sosinho em Mairiporã, mas minha vizinha dorme aqui de vez em quando. A gente se gosta mas não tem amor. sabe como é. De noite quando ela não vem, fico jogando tranca no computador. Adoro meu computador até mais que tudo. até mais que TV onde assisto os jogos de futebol. Sou corintiano roxo. Bem, para encurtar a historia. A minha vizinha resolveu que quer casar e ter filho. Eu que ja me acostumei nesta vidinha não sei o que fazer. Se não casar,ela me deixa. Ela é muito boazinha, diz que gosta de mim e até me prepara uma comida de vez em quando.
O que faço dona Sheila. Qual é sua opinião. Muito obrigado.
Nhenhen



Querido João Maria,

A sua dúvida já encontrou resposta. "A gente se gosta mas não tem amor". Então, é como se vocês já estivessem casados há muito tempo! Qual a diferença entre "casar por amor e acabar gostando" e "casar gostando e continuar gostando"? Case, sim. Com qualquer pessoa boazinha como a sua vizinha, a sua vida e os seus sentimentos no final serão sempre os mesmos. Apenas imponha uma condição: ela não deve entrar no seu quarto quando você está jogando tranca no computador.

Túlio: "o que é ser uma pessoa resolvida?"

Querida Sheila,

Tomei a liberdade de abusar da sua experiência e sabedoria para me ajudar a entender a seguinte questão: O que, na sua opinião, é ser uma pessoa bem resolvida? Conhece alguem que seja?



Querido Túlio,

Para mim uma pessoa resolvida é alguém que resolveu alguma coisa. Nesse caso, todas pessoas que conheço foram ou estão resolvidas. Umas resolveram se casar, outras a ir ao cinema, outras a se mudar etc. Fora desta definição, não acredito que existam pessoas resolvidas. Penso que existem, isto sim, pessoas mais ou menos de bem com elas mesmas. Respondendo a você, conheço algumas e gosto muito. São muito confortáveis.

Mary Lu: "meu namorado é um galinha"

Querida Sheila,

Adorei o seu novo blog, preciso de sua ajuda.
Tenho um namorado, mas não sei se posso confiar nele. Ele é um galinha, me engana tanto que nem posso ter certeza que o meu nenê que está pra nascer seja dele ou não.



Querida Mary Lu,

Pode confiar nele. Se com o próximo bebê você ainda não estiver certa, aí sim será melhor procurar outra mãe.

Rosa na plenitude: "ele é 7 anos mais jovem e me faz sofrer"

Querida Sheila,

Fiquei feliz em saber que você inaugurou um blog de "conselhos". Gosto muito de ler você. Embora nem sempre esteja de acordo, curto as suas opiniões e sei que você tem bom senso, muita experiência e é inteligente. Adoraria ouvir o que tem a dizer sobre o meu problema! Tenho 41 anos, sou divorciada, sem filhos, e estou vivendo desde 2005 com um homem 7 anos mais jovem do que eu. Penso que nunca sofri tanto. Ele desaparece de tempos em tempos, mente muito e já tentou inclusive seduzir uma de minhas amigas. Mas sempre volta e, como não sou ciumenta, acabo perdoando-o. A tranquilidade dura alguns meses e... novamente eu me encontro angustiada, triste e até mesmo humilhada. Claro que já pensei em me separar definitivamente, mas acho que não suportarei ficar sem ele...
   


Querida Rosa na plenitude,

Quando a rosa murcha as coisas ficam bem mais difíceis. Já que você não gosta de sofrer e ainda está na "plenitude", aproveite para tomar uma atitude rapidamente. As pessoas geralmente não mudam ou mudam apenas quando você muda. A pergunta é: o que você pretende fazer? Esperar e continuar assim ou abrir possibilidades para que as coisas se transformem? Faça uma lista de todas as hipóteses, coloque-as lado a lado e compare-as. Garanto que o sofrimento, na hipótese de você ficar com ele, vai ser sempre muito maior do que o sofrimento de você ficar sem ele. A dor da solidão não é nada perto do que você está passando. A dor da separação tende a se apagar com o tempo e pode até mesmo desaparecer totalmente se, um dia, porventura, você encontrar alguém com quem se sinta bem e em confiança.

domingo, 14 de novembro de 2010

Gufa em apuros: "fico com as vacas ou com o belo Beto?"

Querida Sheila

Moro só em uma fazenda, onde crio vacas leiteiras. São lindas, dóceis, e todo meu sustento vem do leite maravilhoso que elas me dão e que vendo para as cidades vizinhas. Faço a ordenha manualmente. Sendo viúva e jovem ainda, trabalho com a ajuda de um velho vizinho chamado de Sinhozinho. Acontece que Sinhozinho morreu, dormindo, coitado, mas em paz. Resolvi procurar ajuda na cidade grande, e veio pedir emprego um moço bonito, bem apessoado, com boa labia de sedutor. Não sou ingênua mas gostei dele, e as vacas ja estavam sofrendo com suas mamas cheias de arrebentar. Pois bem. eu o contratei. Mas, pasme. desde o dia em que o Beto, este é seu nome, entrou no estábulo com seu balde, as minhas lindas - é assim que as chamo- deixaram de dar seu leite. Mugiam irritadas, e tinham um olhar que não era o doce olhar de vaca. Mais de cães raivosos. O que faço ? me enfeiticei pelo moço, mas minhas vacas não querem. Dilema? Claro que é. ou fico com as vacas ou com o belo Beto. Diga-me cara amiga. Sei que estas coisas de bichos e gentes, não são bem tua área, pois conheço tua fama de mulher culta, não bem dada a este tipo de perguntas. Mesmo assim espero que voce possa me responder.
Muito agradecida, querida Sheila
Tua Gufa em apuros



Querida Gufa em apuros,

De fato não entendo de vacas, mas fiquei bastante encabrestada pela sua história. Primeiro, porque não imagino como descobriu o meu blog, segundo porque nunca imaginei que em fazenda de vacas leiteiras também pode haver um mouse e terceiro porque a sua história é complicada, mas muito interessante. Além do mais, para uma fazendeira, você se exprime muito bem. Já pensou em escrever contos? Mas, voltando ao assunto, fique tranquila, existe uma solução: eliminar o dilema. Dê ao Beto outros serviços na fazenda (cozinhar, lavar roupa, limpar a casa, por exemplo) e sinta-se livre para se dedicar apenas às suas lindas. Elas ficarão felizes não só porque é você que as ordenha, como pelo fato de que o homem que elas detestam vai ficar com trabalho de mulher. Ou você acha que vacas não podem ser feministas?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Pai desesperançado: "vampirinho suga o nosso pescoço"

Querida Sheila,

Você me conhece mas prefiro me manter incógnito por razões evidentes, e também para conhecer a sua opinião objetiva. Sou casado, tenho três filhos e uma vida dedicada ao trabalho, à família e aos amigos. Não somos ricos, mas estamos bem. O filho mais velho e a caçula são independentes e já não moram mais conosco. O do meio, perto dos 30, continua a viver às nossas custas. Ainda dorme, come, tem a roupa lavada, passada e recebe seus amigos em casa, sendo que algumas "amigas" às vezes temos o "prazer" de encontrar no café da manhã. Ele está empregado e poderia se virar sozinho, porém certamente não teria as mesmas vantagens que tem morando na nossa casa. Tudo que ele ganha, gasta com luxo, viagens e inutilidades. Ficamos esperando que um dia ele se case e seja obrigado a mudar. Até hoje tentamos justificar isso aos outros e a nós mesmos, porém a verdade sempre prevalece não é mesmo? Claro que gostamos de ver e de nos reunir com os nossos filhos. Porém, não o tempo todo. O fato é que, agora que demos duro para os educar, agora que eles estão adultos e nós aposentados, sonhamos com a nossa merecida liberdade. Apesar do nosso amor por ele, não aguentamos mais ver esse vampirinho nos sugar! Acha que estou errado? Devemos nos resignar?



Querido Pai desesperançado,

Incógnito ou não, tento ser objetiva. A melhor coisa da sua mensagem é o reconhecimento de que "o vampirinho está sugando vocês". No momento em que se admite este fato, já se está muito perto de sua resolução. Há muitos pais que se cegam com o intuito (às vezes inconsciente) de manter os filhotes sob as suas asas. Existem mil e uma estratégias para "agarrar" as crias. As mais eficazes se dão com o acordo delas: pais que agarram os filhos que, por sua vez - oportunistas como são - deixam-se agarrar. Trata-se de um círculo vicioso que só é quebrado quando se admite a verdade. Que pessoa normal (ou neurótico curado) poderia suportar um "vampirinho sugando o pescoço"?

Existem limites para tudo, inclusive para filhos. Também esperar que eles se casem para sair de casa não é uma boa solução. A minha sugestão é que vocês discutam abertamente o problema com o seu filho, comuniquem a ele os seus sentimentos e o orientem em direção à uma urgente e necessária independentização. Sejam firmes. Ajudem-no a encontrar soluções práticas com idéias e também com alguma contribuição material se for necessário. Mas lembrem-se de que não estarão fazendo isso apenas por vocês. Será ele, o grande beneficiário. Uma pessoa que dependa dos pais de alguma forma, não é adulta. E se, além disso, tiver mais de 21 anos, está com sérios problemas. Portanto, estas medidas que podem parecer egoístas, duras e intransigentes constituem, ao contrário, a única saída para que o seu filho resolva os problemas dele e se transforme, não apenas em adulto responsável mas, o que é mais importante, em uma pessoa evoluída.